Histórias de leituras
e escritas tem tudo que ver com reminiscências. E estas nos conduzem
invariavelmente a momentos agradáveis, a experiências que, embora distanciadas
no tempo, nos ajudam a ver e a compreender de outro modo as mudanças por que
passamos. Nos ajudam a refletir sobre o nosso próprio processo criativo, algo
que muitas vezes nos escapa, mas que está presente tanto nas práticas de
leitura, quanto de escrita. Às vezes tenho até dificuldade em distinguir uma da
outra, uma vez que estamos sempre lendo-escrevendo, dialogando o tempo todo com
nossos interlocutores, presencias ou à distância, lendo ou escrevendo.
No módulo 1 fomos
convidados a ler e ouvir depoimentos de alguns autores, para nos motivar a também
escrever sobre nossas próprias experiências. Mas tínhamos que escolher um deles
para tecer comentários. A princípio achei difícil escolher um entre tantos
depoimentos ricos e interessantes, pois de algum modo todos assinalam traços
com os quais, de alguma forma, nos identificamos. Mas acabei por me decidir.
por um.
Ao ler o depoimento
de Contardo Calligaris (disponível no site da Livraria Cultura), chamou minha atenção
o trecho em que diz “...ninguém é capaz de inventar uma vida a partir de nada.”
(ou de forma mais poética “A vida é inventada a partir de uma combinatória de
sonhos que já foram sonhados.”).
Essa frase chamou
minha atenção por vários motivos, especialmente no que diz respeito à
literatura, às artes e aos nossos próprios discursos, tão costurados por
outros. Afinal, foi por esse viés, a literatura, que iniciei meu curso de
letras, motivado por uma redescoberta de algo que desde a infância me dava
muito prazer.
Minha madrinha lia
para mim e meus primos as histórias de Monteiro Lobato, o que nos incentivava a
querer saber mais sobre os heróis que povoavam os “Doze trabalhos de Hércules”,
aguçando minha curiosidade por outras aventuras relatadas na “Ilíada”, na
“Odisseia”, na “Eneida” entre outras, ativando a sede pela leitura e
descobertas. Talvez tenha vindo daí o gosto pela poesia.
Já em relação à
escrita propriamente dita, não me recordo de como comecei a gostar de escrever,
embora tenha experimentado escrever poesia na adolescência. E, embora isto não
seja uma provocação, minha experiência com a leitura e a escrita deu-se mais
fora da escola. Eu e meus amigos líamos, discutíamos e comparávamos nossas
impressões, tanto em relação aos livros, quanto em relação aos filmes e peças
de teatro que assistíamos. Esse foi um hábito que cultivei com meus amigos e
que me foi de grande valia na faculdade. Desse tempo, lembro-me com muito
carinho da professora Sandra Nitrini da, fflch, que me iniciou com maestria nos
estudos de literatura.
Dessa época, também me
lembro com satisfação das leituras extra-curso que fazia com os colegas. Lembro-me
especialmente de uma amiga, Sandra, e as impressões que trocávamos sobre os
textos Guimarães Rosa. Muitas delas, evidentemente, iam parar em nossos
trabalhos de faculdade. Era uma loucura! Sim, os trabalhos eram uma loucura e,
às vezes, pensávamos que no curso de graduação éramos verdadeiras máquinas de
fazer trabalhos. Mas eu gostava particularmente de ler e escrever sobre os
livros que lia. Por no papel as ideias, as impressões do que lia, era um
desafio constante, o que requeria infindáveis reescritas e anotações à margem
dos textos. Experimentar diferentes torneios verbais, para conseguir maior precisão
no que escrevia era uma obsessão.
Depois disso,
participei, durante o meu mestrado, de um grupo bastante especial de leitura e
escrita. Aliás, participar desse grupo era uma das exigências de nosso querido
orientador Prof.Dr. Manoel Luiz Gonçalves Corrêa. Sábia exigência! Pois as discussões
colaborativas tornavam menos áridas a compreensão das teorias e nos ajudavam a
alçar voos mais altos.
Como se vê, minhas
lembranças deram um salto da infância para a adolescência e a vida adulta. Mas,
embora tenha em branco as lembranças escolares do exercício de leitura e
escrita no ensino básico, acredito, com Calligaris, no poder libertador
da literatura, por isso não deixo de ler com meus alunos e exercitar a
imaginação em dramatizações a partir dos textos lidos. Falar e também escrever
sobre o que se leu é uma estratégia de sensibilização que traz sempre bons
frutos e aos poucos vai enfraquecendo as resistências e possibilitando novas
descobertas.
Hoje não escrevo
quase nada, e talvez por isso tenha ficado emocionado com o depoimento de Clair
Feliz Regina (disponível no site Catraca
Livre), para quem escrever é sinônimo de vida, não importando o momento de
(re)iniciar e ser capaz “de uma lágrima fazer um rio...”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário