sexta-feira, 7 de junho de 2013

Experiências de leitura e escrita

    

Histórias de leituras e escritas tem tudo que ver com reminiscências. E estas nos conduzem invariavelmente a momentos agradáveis, a experiências que, embora distanciadas no tempo, nos ajudam a ver e a compreender de outro modo as mudanças por que passamos. Nos ajudam a refletir sobre o nosso próprio processo criativo, algo que muitas vezes nos escapa, mas que está presente tanto nas práticas de leitura, quanto de escrita. Às vezes tenho até dificuldade em distinguir uma da outra, uma vez que estamos sempre lendo-escrevendo, dialogando o tempo todo com nossos interlocutores, presencias ou à distância, lendo ou escrevendo.
No módulo 1 fomos convidados a ler e ouvir depoimentos de alguns autores, para nos motivar a também escrever sobre nossas próprias experiências. Mas tínhamos que escolher um deles para tecer comentários. A princípio achei difícil escolher um entre tantos depoimentos ricos e interessantes, pois de algum modo todos assinalam traços com os quais, de alguma forma, nos identificamos. Mas acabei por me decidir. por um.
Ao ler o depoimento de Contardo Calligaris (disponível no site da Livraria Cultura), chamou minha atenção o trecho em que diz “...ninguém é capaz de inventar uma vida a partir de nada.” (ou de forma mais poética “A vida é inventada a partir de uma combinatória de sonhos que já foram sonhados.”).
Essa frase chamou minha atenção por vários motivos, especialmente no que diz respeito à literatura, às artes e aos nossos próprios discursos, tão costurados por outros. Afinal, foi por esse viés, a literatura, que iniciei meu curso de letras, motivado por uma redescoberta de algo que desde a infância me dava muito prazer.
Minha madrinha lia para mim e meus primos as histórias de Monteiro Lobato, o que nos incentivava a querer saber mais sobre os heróis que povoavam os “Doze trabalhos de Hércules”, aguçando minha curiosidade por outras aventuras relatadas na “Ilíada”, na “Odisseia”, na “Eneida” entre outras, ativando a sede pela leitura e descobertas. Talvez tenha vindo daí o gosto pela poesia.
Já em relação à escrita propriamente dita, não me recordo de como comecei a gostar de escrever, embora tenha experimentado escrever poesia na adolescência. E, embora isto não seja uma provocação, minha experiência com a leitura e a escrita deu-se mais fora da escola. Eu e meus amigos líamos, discutíamos e comparávamos nossas impressões, tanto em relação aos livros, quanto em relação aos filmes e peças de teatro que assistíamos. Esse foi um hábito que cultivei com meus amigos e que me foi de grande valia na faculdade. Desse tempo, lembro-me com muito carinho da professora Sandra Nitrini da, fflch, que me iniciou com maestria nos estudos de literatura.
Dessa época, também me lembro com satisfação das leituras extra-curso que fazia com os colegas. Lembro-me especialmente de uma amiga, Sandra, e as impressões que trocávamos sobre os textos Guimarães Rosa. Muitas delas, evidentemente, iam parar em nossos trabalhos de faculdade. Era uma loucura! Sim, os trabalhos eram uma loucura e, às vezes, pensávamos que no curso de graduação éramos verdadeiras máquinas de fazer trabalhos. Mas eu gostava particularmente de ler e escrever sobre os livros que lia. Por no papel as ideias, as impressões do que lia, era um desafio constante, o que requeria infindáveis reescritas e anotações à margem dos textos. Experimentar diferentes torneios verbais, para conseguir maior precisão no que escrevia era uma obsessão.
Depois disso, participei, durante o meu mestrado, de um grupo bastante especial de leitura e escrita. Aliás, participar desse grupo era uma das exigências de nosso querido orientador Prof.Dr. Manoel Luiz Gonçalves Corrêa. Sábia exigência! Pois as discussões colaborativas tornavam menos áridas a compreensão das teorias e nos ajudavam a alçar voos mais altos.
Como se vê, minhas lembranças deram um salto da infância para a adolescência e a vida adulta. Mas, embora tenha em branco as lembranças escolares do exercício de leitura e escrita no ensino básico, acredito, com Calligaris,  no poder libertador da literatura, por isso não deixo de ler com meus alunos e exercitar a imaginação em dramatizações a partir dos textos lidos. Falar e também escrever sobre o que se leu é uma estratégia de sensibilização que traz sempre bons frutos e aos poucos vai enfraquecendo as resistências e possibilitando novas descobertas.
Hoje não escrevo quase nada, e talvez por isso tenha ficado emocionado com o depoimento de Clair Feliz Regina (disponível no site Catraca Livre), para quem escrever é sinônimo de vida, não importando o momento de (re)iniciar e ser capaz “de uma lágrima fazer um rio...”.

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