sábado, 8 de junho de 2013

E por falar em experiências leitoras...

          Essas reflexões sobre leitura e escrita, assim como os depoimentos dos colegas de curso, acabaram por desencadear em mim algumas lembranças de momentos prazerosos de experiências leitoras e de textos que me deixaram bastante impressionado. Lembrei-me, por exemplo, de um vertiginoso conto de Julio Cortázar, Continuidade dos parques, que, de certa forma, traduz tanto o desejo do leitor, quanto o desejo do(s) autor(es), isto é, o enredamento do leitor com a trama contida em uma narrativa. Vamos conferir?

Continuidade dos parques
 
        Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse, de quando em quando, o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do mato. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos, o punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.
       Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que o levaria a casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada.
        No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

 CORTÁZAR, Julio. Continuidade dos parques. Em: Final do jogo. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura,1972.

          

       Ano passado, pesquisando anúncios publicitários para trabalhar com meus alunos, encontrei esta imagem no Google. Bastante sugestiva, não?

         O propósito era estimular a criatividade dos alunos em, por exemplo, criar um anúncio publicitário a partir dessa imagem. Mas como esse objeto causou uma curiosidade e discussão bastante animada sobre as possibilidades de interpretação, acabei por fazer uma pausa e transformei esse objeto em conteúdo para discutir a relação entre livro ou texto, leitor e autor. Na época, não me lembrei do texto do Cortázar e trabalhei com outro texto bastante interessante do Luiz Fernando Veríssimo, Criaturas, em que discute a relação entre autor e personagem. Além, é claro, de fazer um belo trabalho de intertextualidade, ao dialogar com Seis personagens a procura de um autor, de Pirandello.

Nenhum comentário:

Postar um comentário